Um comboio suburbano chega à estação de Barcarena, procedente de Sintra e com destino a Roma-Areeiro, exactamente às 9:17h. Às 9:38 estará a chegar à estação de Entrecampos. Em três minutos chegamos ao átrio do Metropolitano e, na pior das hipóteses, quatro minutos depois chega um com destino ao Campo Grande - serão 9:45h; às 9:53h chega-se ao destino e caminhando célere, não utilizando as passagens aéreas, chega-se ao nº 16 da Rua Agostinho Neto por volta das 9:58h, que dá tempo para tomar um café e deslocar-me até ao meu objectivo às 10:00h.

Mas na verdade os imponderáveis surgem quando menos se espera e o maquinista pode estar a acabar de secar as mãos, após uma visita aos lavabos durante a sua pausa, e ao constatar que tem um pedaço de papel agarrado ao sapato, perde um minuto a limpá-los fazendo com que o comboio não saia de Sintra às 9:01h. Do mesmo modo que, em desatino vitoriano, ao atirar-se para o terceiro carril do Metropolitano, aquele cujo coração se viu envolto pela teia do despeito causará um transtorno incalculável aos demais, e mais do que uma perca de tempo, um abalo na estrutura ritual pessoal; um algo que não se chega a realizar.

Isto não é de pouca importância.

Todos nós temos os nossos rituais, ou ritos talvez seja mais preciso. E um dos princípios inalienáveis do conceito de tranquilidade é precisamente o da repetição, ou da continuidade, que gera padrões discerníveis de tempos e ocupações. Torna-se possível planificar quando existem ciclos; com eles e uma mãozinha de Prometeu se deu o salto no Neolítico.
A sociedade e, com ela, a civilização medram com a segurança que os ciclos trazem tornando por momentos possível criar uma possibilidade de realização de expectativas futuras.

Os ditos abalos verificam-se em todo o caso.

O sedentarismo deu vida a um estado de locupletação global trajado com os finos trejeitos de um conforto aburguesado (salvé, Pires) - que se afigura acessível a muitos, se bem que não à maioria. Tem todos os electrodomésticos, acessórios, cortinas, bibelots, conjuntos de colheres facas e garfos a condizer com os pratos e copos, ares condicionados e lareiras ou aquecimentos centrais, computadores com ligação à internet, frigoríficos recheados e prateleiras cheias de conservas e massas e arrozes de diversas proveniências e uma infindável lista de pequeninas e grandes coisas que tão familiares nos são que nem as conseguimos nomear. O amigo Guénon realçou esta separação entre o sedentário e o nómada acutilantemente.


O amigo Guénon realçava tudo isto reflectindo sobre o Kali Yuga e a solidificação própria do que é matérico.
Os ciclos, tornando possível tantas coisas úteis e inúteis, fizeram o trilho da dissolução pleno de matéria prima e realmente agradável de calcorrear pelos que vêem o muito mas não o único (esses vagueiam de morte em morte).

Solve et Coagula, todos acabam por reunir na Unidade.

 

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