Há pouco tive uma imagem distinta e cristalina de um rosto que perfurava uma qualquer caixa torácica, vorazmente, sem misericórdia; era o rosto do Tiago da Lousã e a imagem que eu descrevi era, na realidade, um "sonho", chamemos-lhe assim, que ele partilhara em tempos, num Verão distante da minha adolescência. A imagem era uma memória de algo que nunca foi.

Tenho pena que a vida não seja plena destes licantropos que, parcimoniosamente, empoleirados em árvores ou agachados nas esquinas sombrias dos ghettos suburbanos, nas casas de banho ocupadas dos centros comerciais, nas filas de carros que infindáveis de borracha e óleo e lata tanto me irritam, nos jardins públicos e mesmo no sossego dos lares, de um modo belíssimamente violento, feral e logo sublime e puro, dilacerassem as cartilagens, os tendões e as carnes moles e dependuradas de tantos quanto o seu apetite, ou raiva, sentissem necessários para apaziguar os daimons que lhes percorrem os pêlos eriçados, as garras afiadas e os corações solitários. Lamento mesmo que assim não seja.

Não gosto das pessoas no geral mas também não gosto assim tanto do eremitério e assim dou por mim com um dilema em braços. Na verdade, a presença das pessoas, na maioria das vezes, deixa-me positivamente aflito e preocupado, ansioso na melhor das hipóteses e gostava mesmo que morressem todas, ou pelo menos muitas... Alguns dirão que o problema não está nas pessoas mas sim em mim - bem, alguns já mo disseram mesmo mas eu não concordo e mais, sei de outras pessoas que concordam comigo portanto, talvez não seja assim tão errado desejar um fim terrível e, preferencialmente, doloroso que regenerasse o tecido humano do nosso planeta. Talvez o mal não esteja em mim. Odeio todas as pessoas isto é um facto; odeio todas as pessoas menos as que amo, outro.

Todas as pessoas que eu amo são boas correcto? Nem sempre ou mesmo, nem por isso; as pessoas que eu amo não existem mesmo. Quero dizer, existem enquanto projecção idealizada - materializadas mais ou menos consoante os casos - daquilo que eu nelas vejo de amável: das suas qualidades e atributos próprios e pessoais. Felizmente para mim, as pessoas que eu amo - as que existem mesmo - são aproximações bastante fiéis das idealizações edificadas; isso e o facto de eu me relacionar tão pouco com essas pessoas que não resta grande margem para divergências - mesmo assim, a minha fé nessas pessoas que eu amo é grande o suficiente para albergar desvios e falhas que surjam (e surgem sempre concerteza) pois, qual de nós é assim tão perfeito que tal possa exigir aos seus semelhantes?

Mas retomando a licantropia. O Manuel, o esteta e filósofo de facto, certa vez fez uma analogia entre a sociedade humana e os bichinhos: havia ovelhas, ovelhas negras e pastores. Fora deste esquema, e ao longe na serra, ficariam os lobos - todos compreenderam a mensagem e todos acharam, eu incluído claro, que o pathos ideal seria o do lobo, sem dúvida. Hoje compreendi que a visão do Manuel deixara os licantropos de fora. Talvez a sua visão não comportasse o especimen estranho, híbrido de ovelha com lobo, pois de pastor não terá o licantropo nada. Talvez a sua visão fosse zoológicamente abreviada e criteriosamente tivesse chegado à conclusão de que ovelhas, lobos e pastores bastariam para transmitir a imagem - longe de mim, e digo-o com rara humildade, questionar o Manuel, ou sequer ponderar que ele talvez se tivesse "esquecido" de referir os licantropos.

E as pessoas que eu odeio, existirão elas na realidade? Tristemente constato exactamente o mesmo quanto aos que odeio: que a projecção que eu faço deles acaba por corresponder à verdade, salvo um outro lampejo de grandiosidade e um ou outro mais excelso que quase - quase - se catapulta para além da sua natureza íntima que é, íntimamente, vil.

Para além destas pessoas todas existem aquelas outras todas que frequentam aquelas belíssimas zonas cinzentas, alternando entre o amor e o ódio até se chegar a uma conclusão definitiva; estas zonas cinzentas estão nos nossos empregos, nas nossas escolas, nos nossos lares mesmo e, acima de tudo, no nosso coração. Para todas as pessoas "cinzentas" há sempre boa educação de sobra e cultura geral suficiente para manter ou lançar tópicos para conversas animadas à hora do café, do chá, dos doughnuts e dos scones com geleia de morango, ou de amoras silvestres. E apesar de tudo, e para o melhor e pior se quisermos, é com essas mesmas pessoas cinzentas que eu acabo por passar a maioria do meu tempo útil que acaba por se revelar pouco útil quando visto sob esta luz não? Trocando delicadezas, cortesias de circunstância, olhares respeitosos e cordiais cumprimentos se esvai parte da minha vida, o que, óbviamente, não deixa de me perturbar um pouco... mais a mais, é de pessoas que estou a falar.

Gosto mesmo é de olhar para as núvens; adoro as núvens, que para mim são como a corporização do éter: simples e majestosas que causam o horror primitivo da ignorância perante o Belo. Detenho-me, maravilhado muitas vezes em assombro total umas quantas, a admirar de longe tamanha beleza. Como o maravilhoso Sol mediterrânico do Outono lhes confere matizes dourados - que entram em ressonância com a centelha dourada que tenho em mim - ou carmins, púrpuras e roxos solenes que anunciam a noite que se põe todos os dias perante os olhos de todos e nos corações de alguns. Como são alvas como as neves eternas do Espírito quando o Sol se prepara para morrer e cinzentas, serenas e sóbrias quando ele se prepara para renascer. Toda esta encenação celestial me comove genuínamente. Gosto do que é puro e imaculado por isso se torna tão difícil gostar genuínamente das pessoas.

Amar os que amamos aproxima-nos do que é puro na mesma medida em que nos afasta do que é real.

Guilhem de Belisbaste disse "al cap de set cent ans, lo laurel verdejara". Talvez não o tenha profetizado correctamente...

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